Raios em Júpiter podem ser até 1 milhão de vezes mais fortes que os da Terra?

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Raios em Júpiter podem ser até 1 milhão de vezes mais fortes que os da Terra?

Júpiter é o maior planeta do Sistema Solar, dono de tempestades gigantescas, ventos violentos e nuvens que se organizam em faixas coloridas ao redor de todo o planeta. Agora, um novo estudo com dados da missão Juno, da NASA, reforça uma ideia impressionante: os raios em Júpiter podem ser muito mais poderosos do que os raios terrestres.

A análise indica que muitos relâmpagos jovianos podem ter mais de 100 vezes a potência de raios na Terra. Em uma estimativa extrema, ainda cercada de incertezas, alguns sinais poderiam sugerir descargas até 1 milhão de vezes mais potentes em termos de emissão de rádio.

Mas essa frase precisa ser entendida com cuidado. O estudo não diz que todos os raios de Júpiter são 1 milhão de vezes mais fortes que os da Terra. O resultado mais robusto é que as descargas medidas em certas tempestades de Júpiter podem ser comparáveis aos raios terrestres ou ultrapassá-los por mais de 100 vezes. A estimativa de 1 milhão depende de como se compara a emissão de rádio joviana com a emissão de rádio terrestre em frequências diferentes.

Mesmo com essa cautela, a descoberta é fascinante. Ela mostra que os raios de Júpiter são uma ferramenta poderosa para entender como tempestades gigantes transportam calor, água, amônia e energia dentro da atmosfera mais massiva do Sistema Solar.

Brilho de um raio em um vórtice próximo ao polo norte de Júpiter observado pela missão Juno
A missão Juno registrou o brilho de um raio em um vórtice próximo ao polo norte de Júpiter. Em Júpiter, raios podem ocorrer em nuvens com mistura de amônia e água. Crédito: NASA/JPL-Caltech/SwRI/MSSS; processamento de imagem: Kevin M. Gill.

Como a Juno mediu raios em Júpiter?

A missão Juno orbita Júpiter desde 2016. Seu objetivo principal é investigar a estrutura interna, o campo magnético, a composição e a atmosfera do planeta gigante.

Para estudar os raios, os pesquisadores usaram dados do Microwave Radiometer, ou MWR, um dos instrumentos centrais da Juno. Embora ele não tenha sido projetado exclusivamente para estudar relâmpagos, o MWR consegue detectar emissões de rádio e micro-ondas produzidas por descargas elétricas.

Isso é importante porque observar raios em luz visível tem um problema: as nuvens de Júpiter podem esconder os flashes. Um raio pode acontecer em camadas profundas e ainda assim não aparecer claramente nas imagens ópticas.

As emissões de rádio, por outro lado, conseguem atravessar melhor essas camadas. Assim, a Juno pode detectar sinais de raios mesmo quando o brilho visível está bloqueado por nuvens espessas.

O que são supertempestades furtivas?

O estudo se concentrou em tempestades especiais no Cinturão Equatorial Norte de Júpiter, observadas entre 2021 e 2022. Os pesquisadores as chamaram de supertempestades furtivas.

Elas são “supertempestades” porque sua atividade pode durar meses e transformar a estrutura das nuvens ao redor. Mas são “furtivas” porque, diferentemente de supertempestades mais dramáticas, suas torres de nuvens não se elevam tanto na atmosfera visível.

Esse período foi especialmente útil porque havia uma pausa em outras tempestades na mesma faixa de Júpiter. Isso permitiu associar os sinais de rádio detectados pela Juno a tempestades específicas, em vez de confundir múltiplas fontes acontecendo ao mesmo tempo.

Combinando dados da Juno, imagens do Hubble, registros da JunoCam e observações de astrônomos amadores, a equipe conseguiu localizar melhor a origem dos pulsos de rádio.

Trajetória da Juno sobre Júpiter com sinais de rádio de raios associados a uma supertempestade furtiva
Trajetória da Juno sobre Júpiter em agosto de 2022, com sinais de rádio de raios associados a uma supertempestade furtiva isolada. Crédito: NASA/JPL-Caltech/SwRI/MSSS/Björn Jónsson; Wong et al. (2026, AGU Advances; HST e Juno MWR).

Quantos raios foram medidos?

Durante as passagens analisadas, a Juno esteve próxima o suficiente de quatro dessas tempestades para medir emissões de micro-ondas associadas a raios.

Ao todo, os cientistas mediram 613 pulsos de rádio. Em uma única passagem, a Juno detectou 206 pulsos. A taxa média foi de cerca de três flashes por segundo durante os intervalos analisados.

Esses números são importantes porque mostram que a Juno não estava capturando apenas eventos raros e extremos. O instrumento estava registrando uma população de raios dentro das tempestades.

Isso permitiu construir uma distribuição de potência dos pulsos, em vez de depender de poucas detecções isoladas. É essa distribuição que levou à conclusão de que muitos raios jovianos podem ser comparáveis aos terrestres, enquanto outros são muito mais potentes.

O que significa “100 vezes mais potente”?

Quando os pesquisadores dizem que alguns raios em Júpiter podem ser mais de 100 vezes mais potentes que os da Terra, eles se referem principalmente à potência medida em emissões de rádio/micro-ondas associadas aos pulsos de relâmpago.

Isso não é exatamente o mesmo que medir toda a energia de um raio. Um relâmpago libera energia em várias formas: luz visível, ondas de rádio, calor, som, química atmosférica e movimento de partículas.

Na Terra, um raio típico pode liberar cerca de 1 gigajoule de energia total. Mas comparar essa energia total com a emissão de rádio em Júpiter não é simples.

Por isso, a conclusão mais cuidadosa é: os pulsos de rádio dos raios em Júpiter podem ser muito mais potentes que os sinais equivalentes observados em raios terrestres. Traduzir isso diretamente para energia total do raio exige modelos e suposições adicionais.

E o valor de 1 milhão de vezes?

A estimativa de até 1 milhão de vezes chama atenção, mas deve ser tratada como limite extremo e incerto.

O problema é que os pesquisadores compararam emissões de rádio de raios terrestres em uma faixa de frequência com emissões de Júpiter em outra faixa. Como a distribuição da energia do raio muda com a frequência, essa comparação não é direta.

Dependendo de como se extrapola a emissão de rádio da Terra e de Júpiter, alguns pulsos jovianos poderiam parecer extremamente mais potentes. Mas essa diferença pode diminuir quando futuras medições compararem frequências equivalentes ou modelarem melhor a emissão.

Portanto, a forma cientificamente responsável de comunicar é: Júpiter tem raios confirmadamente muito potentes, frequentemente acima dos terrestres; a hipótese de até 1 milhão de vezes mais potência é possível, mas ainda incerta.

Por que Júpiter produz tempestades tão intensas?

Júpiter é um planeta gigante gasoso composto principalmente de hidrogênio e hélio. Ele não tem uma superfície sólida como a Terra. Sua atmosfera se aprofunda gradualmente em camadas cada vez mais densas e pressurizadas.

As tempestades de Júpiter são alimentadas por calor interno e por processos de convecção. Convecção é o movimento de material quente subindo e material frio descendo, transportando energia dentro da atmosfera.

Na Terra, o ar é dominado por nitrogênio, e o vapor de água torna o ar úmido mais leve, ajudando-o a subir. Em Júpiter, a atmosfera é dominada por hidrogênio, e o comportamento da água e da amônia é diferente. O ar úmido pode ser relativamente mais difícil de erguer.

Isso significa que uma tempestade em Júpiter pode precisar acumular mais energia antes de crescer. Quando finalmente se desenvolve, pode liberar essa energia de forma muito intensa, produzindo ventos fortes, nuvens profundas e descargas elétricas poderosas.

Sequência de imagens da JunoCam mostrando tempestades e ciclones próximos ao polo norte de Júpiter
Sequência de imagens da JunoCam mostrando tempestades e ciclones próximos ao polo norte de Júpiter. Crédito: NASA/JPL-Caltech/SwRI/MSSS; processamento de imagem: Brian Swift.

Raios em Júpiter são iguais aos da Terra?

O processo básico pode ser parecido: partículas em nuvens se movimentam, colidem e se separam eletricamente, criando grandes diferenças de carga. Quando a tensão fica alta o suficiente, ocorre uma descarga elétrica.

Mas o ambiente é muito diferente. Na Terra, raios se formam principalmente em nuvens de água e gelo. Em Júpiter, os raios provavelmente envolvem nuvens profundas de água e também nuvens com mistura de amônia e água.

A Juno já revelou um tipo inesperado de raio chamado shallow lightning, ou raio raso, que ocorre em altitudes onde a água pura deveria estar congelada. A explicação envolve amônia, que age como uma espécie de “anticongelante”, permitindo a existência de gotículas de solução amônia-água em condições muito frias.

Além disso, Júpiter tem descargas frequentemente observadas em altas latitudes e regiões polares, enquanto na Terra os raios são mais comuns em regiões tropicais e continentais.

O que são “mushballs”?

As “mushballs” são uma hipótese proposta por cientistas da missão Juno para explicar parte da dinâmica de água e amônia na atmosfera de Júpiter.

Em português, poderíamos chamá-las de bolas de granizo pastoso. Elas seriam formadas por uma mistura de água e amônia, parecida com gelo lamacento, criada dentro de tempestades intensas.

Essas partículas poderiam crescer, cair para camadas mais profundas e transportar amônia e água para baixo. Isso ajudaria a explicar por que a Juno encontrou regiões da atmosfera joviana empobrecidas em amônia.

As mushballs também se conectam ao estudo dos raios porque a separação de cargas em nuvens depende de colisões entre gotículas, cristais de gelo e partículas semelhantes a granizo. Em Júpiter, esses “granizos” podem ter química muito diferente da terrestre.

Por que raios ajudam a entender a atmosfera de Júpiter?

Raios são marcadores de convecção intensa. Onde há descargas elétricas, provavelmente há nuvens ativas, transporte vertical de calor e partículas colidindo em grande escala.

Em Júpiter, isso é especialmente valioso porque não conseguimos observar diretamente todas as camadas profundas da atmosfera. As nuvens superiores escondem processos que acontecem abaixo.

Quando a Juno detecta raios, ela revela onde tempestades estão energéticas o suficiente para gerar separação de cargas. Isso ajuda a mapear regiões de convecção, estimar a presença de água e entender como o calor interno do planeta se move para cima.

Em outras palavras, estudar relâmpagos em Júpiter não é apenas medir “raios gigantes”. É investigar o motor climático do maior planeta do Sistema Solar.

Júpiter tem tempestades maiores que as da Terra?

Sim. Júpiter abriga tempestades muito maiores e mais duradouras do que as terrestres. O exemplo mais famoso é a Grande Mancha Vermelha, uma tempestade anticiclônica observada há séculos.

Mas a Grande Mancha Vermelha não é o único sistema extremo. Júpiter tem ciclones polares, faixas de nuvens que circulam o planeta, jatos atmosféricos e tempestades convectivas que podem durar meses.

Segundo os pesquisadores, torres de tempestade em Júpiter podem atingir mais de 100 quilômetros de altura, enquanto tempestades terrestres típicas chegam a cerca de 10 quilômetros.

Essa escala vertical maior pode ser uma das razões para a potência dos raios jovianos. Quanto maiores as distâncias envolvidas e maior a energia acumulada, mais intensas podem ser as descargas.

Por que a Juno é tão importante?

Antes da Juno, muitas observações de raios em Júpiter vinham de imagens do lado noturno do planeta. Esses flashes eram mais fáceis de ver quando estavam muito brilhantes, o que criava um viés: talvez os cientistas estivessem detectando apenas os raios mais fortes.

A Juno mudou isso porque observa Júpiter de perto, em órbitas polares, e carrega instrumentos capazes de detectar diferentes tipos de emissão.

Seu Microwave Radiometer consegue sondar abaixo das nuvens visíveis. Sua câmera JunoCam registra imagens detalhadas da atmosfera. Outros instrumentos estudam campos magnéticos, partículas energéticas e auroras.

Com esses dados combinados, os cientistas podem entender melhor não apenas onde os raios ocorrem, mas também como eles se relacionam com tempestades, nuvens e composição atmosférica.

Isso muda o que sabemos sobre raios na Terra?

Indiretamente, sim. Estudar raios em Júpiter ajuda a testar teorias gerais sobre eletricidade atmosférica.

A Terra é apenas um exemplo de planeta com relâmpagos. Júpiter oferece um laboratório natural muito diferente: atmosfera de hidrogênio, nuvens de amônia, pressões enormes, calor interno intenso e tempestades gigantes.

Se alguns princípios de formação de raios funcionam tanto na Terra quanto em Júpiter, eles podem ser universais. Se outros processos diferem, essas diferenças ajudam a revelar quais ingredientes realmente controlam a potência de uma descarga elétrica.

Essa comparação também pode ser útil para estudar atmosferas de exoplanetas gigantes, especialmente mundos parecidos com Júpiter, Saturno ou “Júpiteres quentes” que orbitam outras estrelas.

O que ainda não sabemos?

Ainda não sabemos exatamente por que alguns raios de Júpiter são tão poderosos.

Uma possibilidade é a diferença química da atmosfera: Júpiter é dominado por hidrogênio, enquanto a Terra é dominada por nitrogênio e oxigênio. Outra possibilidade é a altura das tempestades, que pode permitir separação de cargas em escalas maiores.

Também pode haver mais energia disponível antes que uma tempestade consiga subir na atmosfera joviana. Como a convecção úmida em Júpiter funciona de modo diferente, a tempestade pode acumular energia por mais tempo antes de descarregá-la.

Além disso, os cientistas ainda precisam entender melhor como converter potência de rádio em energia total de um raio. Essa é a principal razão pela qual a estimativa de “até 1 milhão de vezes” permanece incerta.

Por que a descoberta não deve ser exagerada?

O título “raios até 1 milhão de vezes mais fortes” é chamativo, mas pode gerar uma impressão errada se for lido sem contexto.

O estudo não afirma que todos os raios de Júpiter são 1 milhão de vezes mais fortes que os da Terra. Também não mede diretamente a energia total de cada descarga em todos os comprimentos de onda.

O resultado mais seguro é que a Juno mediu pulsos de rádio associados a raios em tempestades jovianas e encontrou uma população de eventos que varia de potência comparável à terrestre até mais de 100 vezes superior. O cenário extremo de 1 milhão de vezes depende de incertezas espectrais.

Mesmo sem exagero, isso já é extraordinário. Raios mais de 100 vezes mais potentes que os da Terra em uma atmosfera gigante já são suficientes para mostrar como Júpiter é um mundo meteorologicamente extremo.

Conclusão: relâmpagos gigantes em um planeta gigante

Os novos dados da missão Juno revelam que os raios em Júpiter podem ser muito mais poderosos do que os raios terrestres. Ao analisar emissões de rádio produzidas por descargas em supertempestades furtivas, os pesquisadores encontraram pulsos que podem superar raios da Terra em mais de 100 vezes.

A possibilidade de raios até 1 milhão de vezes mais potentes é intrigante, mas ainda incerta. Ela depende de comparações difíceis entre emissões de rádio observadas em frequências diferentes. Por isso, deve ser vista como uma hipótese extrema, não como uma conclusão definitiva para todos os raios jovianos.

O mais importante é que os relâmpagos de Júpiter ajudam a revelar como sua atmosfera profunda funciona. Eles apontam para regiões de convecção intensa, mostram onde tempestades transportam calor e ajudam a investigar a presença de água, amônia e partículas carregadas.

Júpiter não é apenas um planeta bonito com faixas coloridas. É um laboratório natural de meteorologia extrema, onde tempestades podem durar meses ou séculos e raios podem liberar energia em escalas difíceis de imaginar.

Com a Juno ainda fornecendo dados valiosos, cada pulso de rádio detectado em Júpiter é mais do que um relâmpago distante. É uma mensagem elétrica vinda das profundezas da maior atmosfera planetária do Sistema Solar.

Fonte principal

Este artigo foi produzido com base na reportagem da Space.com sobre raios em Júpiter, no comunicado da Universidade da Califórnia em Berkeley, no artigo científico Radio Pulse Power Distribution of Lightning in Jupiter’s 2021–2022 Stealth Superstorms, na página da NASA/JPL NASA’s Juno Mission Captures Lightning On Jupiter e na página da missão Juno.

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